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Segunda, 06 de dezembro de 2021
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História

Yasser Arafat: Símbolo da luta pela libertação de todo um povo

Considerado um dos mais importantes líderes da libertação do povo palestino da ocupação israelense

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Arafat nasceu no Cairo, capital do Egito, em agosto de 1929, filho de pais palestinos. Segundo outra versão, seu local de nascimento teria sido a casa do avô na cidade velha de Jerusalém. Passou parte da infância e juventude na capital egípcia, onde estudou engenharia na Universidade Rei Fuad I. Em 1948, com a criação de Israel, engajou-se no movimento palestino e mudou-se para a Cisjordânia. Em 1950, fundou o movimento armado conhecido como Fatah, já na época dividido em facções. Em 1967, após a Guerra dos Seis Dias, na qual Israel anexou ao seu território a Cisjordânia e a Faixa de Gaza (áreas majoritariamente habitadas por palestinos), Arafat entrou para a OLP, movimento pelo qual ficaria conhecido mundialmente.

A Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967 (entre Israel e os vizinhos), terminou com a derrota dos árabes. Mas Arafat e a Fatah se consideraram moralmente vitoriosos porque a maioria dos palestinos, que até então tendia a se alinhar com os governos árabes individuais, agora concordava que uma solução para o seu drama era indispensável e passava pela organização de suas próprias forças. Partidos políticos como o Movimento Nacionalista Árabe, de George Habash, o Alto Comitê Árabe, de Haj Amin al-Husseini, a Frente de Libertação Islâmica e vários outros grupos desmoronaram depois da derrota dos governos que os patrocinavam. Disfarçado, Arafat cruzou o rio Jordão e entrou na Cisjordânia. Lá, montou centros de recrutamento em Hebron, Jerusalém e Nablus, juntando guerrilheiros e financiadores para sua causa. A Fatah e a OLP, ambas controladas por ele, seriam, a partir daí, a face visível da luta dos palestinos.

Logo depois da derrota dos árabes para Israel, os campos de refugiados de palestinos na vizinha Jordânia foram dominados pela Fatah e a presença ostensiva dos fedayeen, os guerrilheiros, tornou-se uma imagem recorrente no país. Entre eles, Arafat era o mais midiático e carismático. Impressionava pela sua aparência: óculos escuros, barba grisalha, trajes militares, um sorriso levemente irônico no rosto e uma kaffiyeh sobre a cabeça – um lenço quadriculado que tinha como padrão uma rede de pescadores.

Yasser Arafat personificava a luta pela libertação de todo um povo. Uma espécie de Che Guevara do Oriente Médio, aquele líder de perfil romântico que mistura a violência das armas em um certo ar poético à procura da justiça social. O tipo de liderança que desperta, por onde passa, quantidades gigantescas de amor e ódio. Quando, em 1974, tornou-se o primeiro líder a discursar na Assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, sem representar um governo já estabelecido, disse a famosa frase: “Hoje eu vim aqui usando um ramo de oliva e uma arma de guerrilheiro. Não deixem que o ramo de oliva caia da minha mão” – repetiu a segunda frase duas vezes, num tom que poderia ser interpretado tanto como um pedido quanto como uma ameaça. Durante o discurso, Arafat usava trajes militares e portava uma cartucheira vazia.

A criação da Fatah

Após a Crise de Suez, em 1956, o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser, líder do Movimento de Oficiais Livres, concordou em permitir que a Força de Emergência das Nações Unidas se estabelecesse na Península do Sinai e na Faixa de Gaza, causando a expulsão de todas as forças da guerrilha ("fedayeen") incluindo Arafat. Ele originalmente tentou obter um visto para o Canadá e, posteriormente, para Arábia Saudita, mas não teve sucesso em ambas as tentativas.

Em 1957, ele pediu um visto para o Kuwait (na época um protetorado britânico) e foi aprovado com base em seu trabalho em engenharia civil. Lá ele encontrou dois amigos palestinos: Salah Khalaf ("Abu Iyad") e Khalil al-Wazir ("Abu Jihad"), ambos membros oficiais da Irmandade Muçulmana egípcia. Arafat tinha encontrado Abu Iyad, enquanto frequentava a Universidade de Cairo e Abu Jihad em Gaza. Ambos se tornaram principais assessores de Arafat na política futura. Abu Iyad viajou com Arafat para o Kuwait, no final de 1960; Abu Jihad, atuando também como professor, já tinha vivido lá desde 1959.

Após se acomodar no Kuwait, Abu Iyad ajudou Arafat a obter um emprego temporário como professor.

A bandeira adotada pela Organização para a Libertação da Palestina em 1964.

 

Arafat e os outros gradualmente fundaram o grupo que ficou conhecido como o Fatah. A data exata para o estabelecimento é desconhecida. No entanto, em 1959, a existência do grupo foi atestada nas páginas de uma revista nacionalista palestina, Filastununa Nida al-Hayat (Nossa Palestina, The Call of Life), que era escrita e editada por Abu Jihad.

Fatah dedicou-se à libertação da Palestina por uma luta armada realizada pelos próprios palestinos. Isso a diferenciava de outras organizações políticas e de guerrilha palestinos, a maioria dos quais acreditavam firmemente em uma resposta unida dos países Árabes. A organização de Arafat nunca abraçou as ideologias dos principais governos árabes da época, em contraste com outras facções palestinas, que muitas vezes se tornaram satélites de países como Egito, Iraque, Arábia Saudita, Síria e outros.

Depois da guerra dos seis dias (1967), Arafat e a Fatah passam a actuar a partir da Jordânia, lançando ataques contra Israel a partir do outro lado da fronteira e regressando à Jordânia antes que os israelenses pudessem reagir.

Em 1968 a Fatah foi um alvo de um ataque israelense à vila jordana de Karameh, no qual 150 guerrilheiros palestinianos e 29 soldados israelenses foram mortos, sobretudo por forças armadas jordanianas. Apesar do falhanço no terreno, a batalha foi considerada pelos árabes como uma montra para a acção da Fatah porque os israelenses se retiraram e o perfil de Arafat e da Fatah cresceram. Nos finais da década de 1960 a Fatah passou a dominar a OLP e em 1969 Arafat foi nomeado presidente da OLP, substituindo Ahmed Shukairy, originalmente nomeado pela Liga Árabe.

Arafat tornou-se chefe do Estado Maior das Forças Revolucionárias Palestinianas dois anos mais tarde e em 1973 o líder político da OLP.

No seguimento da ambição da OLP em transformar a Jordânia num estado palestiniano (com o patrocínio da União Soviética), crescem neste tempo as tensões entre Palestinianos e o Governo da Jordânia, o que culminaria com o sequestro (e subsequente destruição) de quatro aviões pela OLP e na Guerra Civil Jordana de 1970-1971 (em particular com os eventos do Setembro Negro).

Neste conflicto, a monarquia jordana, com a ajuda de Israel, derrotou a OLP e a Síria, que se preparava para invadir a Jordânia em apoio da OLP.

Yasser Arafat se insere na tradição de figuras políticas do século XX que se notabilizaram na luta anticolonial. Líderes como o sul-africano Nelson Mandela, o congolês Patrice Lumumba e o vietnamita Ho Chi Minh, todos foram muito influenciados pela geopolítica que dividia o mundo em suas épocas e que, pelo menos em algum momento, defenderam ideias socialistas. Pegaram em armas para depois adotarem táticas de luta pacíficas e chegaram, de uma forma ou de outra, ao poder.

De todos os exemplos citados, porém, Arafat foi o que teve o poder nas mãos da forma mais instável e passageira. O pouco do controle real sobre uma estrutura de Estado (no caso da Autoridade Palestina) aconteceu depois do chamado Acordo de Oslo, assinado em Washington no final de 1993, por Arafat, como presidente da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), pelo então primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, e pelo ministro de relações exteriores Shimon Peres. Os três ganharam o Prêmio Nobel da Paz do ano seguinte. Pelo acordo, palestinos e israelenses concordaram em um certo grau de autonomia para os primeiros na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, territórios que haviam sido anexados pelos israelenses em 1967.

 Acordo de Paz de Oslo

No entanto, a crispação americana em breve se atenuou, levando aos Acordo de Paz de Oslo de 1993, que estipulavam a implementação da auto-administração Palestiniana na Cisjordânia e na Faixa de Gaza num período de cinco anos. No ano seguinte, numa decisão controversa, Arafat recebeu o Nobel da Paz, juntamente com Shimon Peres e Yitzhak Rabin. Em 1994, Arafat deslocou-se para a Autoridade Palestiniana (AP) - a entidade provisional criada pelos acordos de Oslo.

A 20 de janeiro de 1996, Arafat foi eleito presidente da AP, com uma maioria esmagadora de 87% (o único outro candidato sendo Samiha Khalil). Observadores independentes internacionais reportaram que as eleições decorreram de forma livre e justa. No entanto, alguns críticos alegam que porque a maioria dos movimentos de oposição não participaram nas eleições e outras irregularidades, as eleições não foram verdadeiramente democráticas.

Novas eleições estavam inicialmente anunciadas para janeiro de 2002, mas foram depois adiadas, alegadamente por causa da impossibilidade de fazer campanha devido a incursões militares israelenses e restrições da liberdade de movimento nos territórios ocupados.

Desde 1996, o título usado por Arafat como líder da Autoridade Palestiniana é a palavra árabe ra'is (cabeça) cuja tradução para o português é matéria de disputa. Documentos israelenses traduzem normalmente a palavra como "chairman" (presidente de conselho), enquanto documentos palestinianos traduzem-no como "presidente". Os Estados Unidos normalmente seguem a prática israelense, enquanto que as Nações Unidas normalmente seguem a prática palestiniana, que também é usada em Portugal.

Em meados de 1996, após a eleição de Benjamin Netanyahu como primeiro-ministro de Israel, as relações israelo-palestinianas tornaram-se mais hostis. Benjamin Netanyahu tentou obstruir a transição para o estado palestiniano delineada no acordo OLP-Israel. Em 1998, o presidente dos Estados Unidos Bill Clinton interveio, arranjando um encontro com os dois líderes. O resultante Memorandum de Wye River de 23 de outubro de 1998 detalhava os passos a tomar pelo governo israelense e pela OLP para completar o processo de paz.

Arafat continuou as negociações com o sucessor de Netanyahu, Ehud Barak. Em parte devido à sua própria política (Barak pertence ao partido trabalhista, enquanto que Netanyahu ao partido conservador Likud) e parcialmente devido à grande pressão colocada pelo Presidente Americano Bill Clinton, Barak ofereceu a Arafat um Estado palestiniano na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, com Jerusalém Leste como capital, um regresso de um número limitado de refugiados e uma compensação para os restantes, mas não estipulando sobre outros assuntos, vistos como vitais no processo. Numa manobra amplamente criticada, Arafat rejeitou a oferta de Barak, e não fez qualquer contra-oferta. Seguindo a uma visita altamente controversa de Ariel Sharon à área delimitada da Mesquita Al-Aqsa e a violência que se seguiu, a chamada Segunda Intifada Palestiniana (ou Intifada Al-Aqsa Intifada) (2000 até hoje) começou.

 

 

"A Paz não pode ser atingida excepto após o cessar da escalação militar e o bloqueio económico e financeiro, o fim da ocupação, a remoção das colónias..."

 

Morto oficialmente por uma infecção generalizada, Yasser Arafat tinha uma lista de inimigos que despertou teorias

Os conflitos no Oriente Médio sempre estimularam teorias conspiratórias, e a morte de Yasser Arafat, símbolo da luta contra a ocupação israelense, e o mais importante líder palestino, não poderia ser diferente, Arafat veio a falecer em em novembro de 2004, aos 75 anos, depois de passar 14 dias internado num hospital militar na França.

Laudos médicos oficiais informaram apenas que a morte foi consequência de falência múltipla de órgãos. Porém, teorias conspiratórias falam em leucemia, câncer, inflamação do sistema digestivo, envenenamento e até Aids.

Arafat tinha em seu currículo um prêmio Nobel da Paz, mas também era visto como um obstáculo para a paz no Oriente Médio. Na época, a lista de interessados em sua morte era extensa e poderosa, incluindo Estados Unidos e Israel. 

A morte

Arafat estava em sua casa, em Ramallah, Cisjordânia, quando começou a sentir fortes dores no estômago. Devido à complicações no seu tratamento, foi transferido para o Hospital Militar de Percy, na França, e veio a falecer poucos dias depois.

Apesar de oficialmente sua morte ter sido em decorrência de uma falência múltipla de órgãos, o biógrafo de ArafatAmnon Kapeliouk, levantou a possibilidade do representante da Palestina ter sido envenenado pelo serviço secreto de Israel. A  tese foi defendida por uma pessoa próxima a Arafat: sua esposa.

Envenenamento

A história parecia ter sido esquecida, no entanto, em 2012, o Instituto de Radiofísica do Hospital Universitário da Universidade de Lausanne, na Suíça, trabalhou 9 meses analisando materiais biológicos de Arafat, e encontrou uma alta presença de polônio 210.

O elemento químico em questão é altamente radioativo. Depois que o resultado da pesquisa foi publicado, a rede de televisão árabe Al Jazeera noticiou amplamente o caso, afirmando ser possível que o representante político tivesse sido morto por envenenamento com material radioativo.

Israel prontamente negou qualquer envolvimento na morte do líder. Assim, o corpo de Yasser foi exumado no mesmo ano a pedido do presidente palestino, Mahmoud Abbas, para que fosse testado o nível de polônio no corpo do homem. O relatório teria apontado um nível maior do que o considerado 'seguro' em um corpo humano.

Créditos (Imagem de capa): Reprodução

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