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Sábado, 18 de setembro de 2021
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Coluna

Outra História e Geografia

Considerações inspiradas no vídeo "Por que a América não colonizou a Europa", do canal Meteoro Brasil.

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Por Marco Roberto de Souza Albuquerque

Convém cautela: a História -- e as ciências sociais como um tudo -- diferem das ciências naturais na consolidação do estatuto de arte de sua epistemologia.

As ciências que se dedicam aos seres e aos fenômenos da Natureza (desde os assombrosamente grandes até os surpreendentemente pequenos) impulsionam suas investigações, engendram seus experimentos e codificam sua literatura -- a partir da correlação de forças entre o falseamento de paradigmas e a consensualidade de problemáticas.

A explicação científica, por exemplo, para a anatomia, a fisiologia e a mútua interação observáveis nos seres vivos até hoje conhecidos em nosso planeta -- alicerça-se, destarte, no paradigma da evolução, cuja genealogia remontaria a uma forma unicelular primigênia, resultante da síntese de compostos inorgânicos nas águas oceânicas de há mais de quatro bilhões de anos.

Essa teoria é hoje paradigmática porque tem sido consistente, até o momento, na montagem do quebra-cabeças constituído de achados e de inferências que vêm sendo aplicados a tudo o que se relaciona aos estudos biológicos -- e, mais recentemente, até mesmo ao que toca à compreensão do Humano: as teorias evolutivas aplicadas à psicologia, antropologia, sociologia, política.

Todavia esse paradigma é passível de falseamento: embora a montagem do quebra-cabeças tenha sido, até agora, consistente  -- ela não é perfeita. Há dúvidas sobre a ocorrência de determinadas singularidades: por exemplo, como teria ocorrido o surgimento da vida por meio da síntese de elementos inorgânicos? Além disso, certas inferências feitas com base na evolução das espécies, se já foram largamente aceitas, hoje recebem duras críticas: veja-se, a respeito, o darwinismo social -- predominante no meio acadêmico desde fins do século XIX até meados do século passado, mas hoje desacreditado.

Contudo, se se pode falsear semelhante paradigma, as críticas e reservas científicas que problematizam a teoria hegemônica, tendem a orbitar em torno de determinados consensos na própria maneira de estabelecer as críticas, apontar as reservas -- e inclusive orientar as buscas de novos achados e as formulações de novas inferências.

Para concluir: suponha-se que se consiga demonstrar a consistência de que a vida, na Terra, não se originou nos oceanos de bilhões de anos atrás; ela aqui chegou -- num tempo igualmente remotíssimo -- em cometas ou meteoritos. Isso não inviabilizaria o consenso de que o estado atual dos seres vivos (anatomia, fisiologia e interação) é dinâmico: já foi diferente e continuará sendo. Submete-se ao falseamento a origem das espécies ou o mecanismo de sua evolução; mas não o consenso de que elas resultam de uma contínua, e ainda hoje constatável, evolução.

Ora, se às disciplinas científicas que se dedicam à Natureza se lhes dá o epíteto de ciências exatas -- aos estudos acadêmicos comumente chamados ciências humanas, prefiro dar-lhes, seguindo nisso ao filósofo e historiador Enrique Dussel -- a designação de ciências complexas.

E, dada a complexidade do Humano em todos os âmbitos segundo os quais se pretenda estudar (no tempo e no espaço) os indivíduos e suas coletivizações -- não basta a exatidão, com que se estuda a Natureza, para estabelecer o estatuto de arte de especialidades como história, geografia, psicologia e quejandos; por isso os procedimentos metodológicos de tais ciências não podem ancorar-se às mesmas premissas epistemológicas das ciências exatas.

Grosso modo, as ciências complexas coligem sua literatura por intermédio da correlação de forças entre o cânon (que se esforça por conservar a Tradição: os clássicos) e a crítica (que se empenha por problematizar a Tradição: os contemporâneos).

Esclareça-se que as categorias "clássico" e "contemporâneo" não se empregam, aqui, como antíteses cronológicas (antigo versus atual): tal dicotomia se arrima à conceituação de contemporâneo proposta pelo filósofo italiano Giorgio Agamben -- segundo a qual, em qualquer época, sói irromper um modo de sentir e de pensar que se insurge contra seu tempo.

Aos que se interessem pela formulação de Agamben sobre a noção de contemporâneo, siga-se a este enlace: https://bit.ly/3h0C4v1

Ora, vejamos como a correlação de forças entre o cânon e a crítica pode ajudar-nos a entender, entre outras coisas -- por que os europeus conquistaram os povos originários americanos, e não o contrário.

Para tanto, basear-se-á a argumentação nas proposições do filósofo Enrique Dussel -- um dos próceres da corrente epistemológica chamada Giro Descolonial, desenvolvida na América Latina, mas discutida em universidades mundo afora.

Sugere-se, para familiarizar-se com o Giro Descolonial -- entre os muitos cursos, palestras e entrevistas, sobre o assunto, do grande pensador "argemex" (intelectual argentino que, por força da ditadura, emigrou para o México) -- a exposição cujo enlace é este: https://youtu.be/6GLzHSlGf4o 

Segundo a Tradição -- cujo cânon foi fixado, em termos cronológicos, não faz muito tempo: em fins do século XVIII, com o surgimento do  romantismo alemão -- o Espírito, cumprindo um percurso geográfico de leste a oeste, escreve o relato histórico de uma sucessão de graus de humanidade: desde o primitivo até o civilizado, passando pelo bárbaro e pelo exótico.

Cruzando-se a abscissa geográfica com a ordenada cultural, a Tradição naturalizou a seguinte estruturação do Tempo: Idade Antiga, Idade Clássica, Idade Medieval e Idade Moderna. A essa estruturação cronológica chamou-se-lhe História Universal.

Tal sucessão de idades, além de naturalizada, está estabelecida: a Tradição não supõe que novos documentos, testemunhos ou inferências possam alterar essa ordem ou acrescentar--lhe outra idade.

Por fim a Tradição anexou uma espécie de apêndice -- a Idade Contemporânea -- para dar conta dos registros e análises dos fenômenos que, impulsionados pelo consórcio entre a Ciência, a Tecnologia e a Indústria -- obrigaram a História a parar de empregar a analogia "passos", e passar a usar "corrida" e, não muito depois, "voo".

Frise-se que, segundo os clássicos -- a começar por Hegel, o formulador da fenomenologia conforme a qual o Espírito escreve a História rumando do Oriente para o Ocidente -- a hierarquização da humanidade encontra seu ápice num ponto cartesiano formado pela intercessão entre o Ocidente e a Modernidade.

Reconheça-se que esse constructo da Tradição, conservado pelos clássicos, é muito sofisticado -- a ponto de pessoas e instituições progressistas se valerem dessa narrativa para reivindicar a emancipação dos povos e lugares expoliados pelos sistemas de Poder que justamente financiaram a História Universal e a Geografia Geral para justificar a escravização, a exploração, a exclusão e o extermínio das populações que não se ajustavam à lógica cartesiana da civilidade: moderna e ocidental.

Porém, ademais de servirem precipuamente à justificação ideológica dos processos de expropriação dos recursos naturais e de exploração da mão de obra nas terras submetidas ao colonialismo ibérico ou ao imperialismo britânico -- aos discursos histórico e geográfico da Modernidade poder-se-lhes-á apor, em termos epistêmicos, ainda uma crítica, não ética -- mas METODOLÓGICA.

É complicado enquadrar, por exemplo, as grandes civilizações do Novo Mundo na hierarquização civilizatória da História Universal: elas tiveram uma idade clássica? Estavam numa idade média quando do início da Conquista? Ou pertenciam a uma idade antiga?

Outra coisa -- agora quanto à Geografia Geral: se o Espírito vai do Leste para o Oeste -- o que comprovaria que a lei, o progresso e a ciência culminam no Ocidente, enquanto o despotismo, o exotismo e o fanatismo superabundam no Oriente -- que dizer de impérios tais qual o incaico: como se pode representá-los, num planisfério, a oeste de Greenwich -- representariam eles, então, a cultura ocidental?

Para superar essas inconsistências, Enrique Dussel propõe -- como soem fazer os representantes do Giro Descolonial -- outra História e Geografia.

Considere-se que, antes da Conquista, o Mundo conhecido constituía-se de duas grandes massas de terra -- poder-se-las-á cartografiar como um complexo civilizatório afroasiático. Nessa forma de geometrizar os povos e seus lugares -- a Europa é apenas uma península da Ásia.

A dinâmica civilizatória do complexo afroasiático orienta-se de oeste a leste: até o século XVIII, o centro dos sucessivos sistemas-mundo que ordenaram a Afroásia  -- desde o assírio (que se estendia da Mesopotâmia a Chipre) até o árabe (que açambarcava desde a China até Gibraltar) -- sempre assentou seus centros políticos, econômicos e culturais no Oriente: nunca no Ocidente.

Como?! E o império romano, que se espraiava por lugares tão distantes quanto as margens do Eufrates e as costas da Bretanha?

Entenda-se: quando os latinos finalmente construíram seu sistema-mundo -- iniciado nos tempos do imperador Augusto -- seu centro político, econômico e cultural já não era mais Roma: diferentes cidades do Oriente, mais prósperas e cosmopolitas (Antioquia, Alexandria, Babilônia), dividiam entre si, no Oriente, os núcleos da lei, do progresso e da civilidade romanos. A partir do século IV a. C., Constantino assentou a capital do Império definitivamente em Bizâncio (hoje, Istambul), e esse foi o centro do sistema-mundo romano até que outro Império (oriental, claro) reorganizasse o complexo afroasiático.

Não há de mister duvidar: Roma -- a cívita que congregou as aldeias monteses da região do Lácio num reino capaz de submeter progressivamente os demais povos da Península Itálica -- foi a capital da monarquia e, depois, da república romanas. Entretanto, a partir da instituição do Império, a velha cidade à margem do Tibre foi assumindo uma importância cada vez menos relevante -- até ser abandonada às hordas bárbaras do Oeste no século V desta era. Igualmente, não há mister de duvidar: o sistema-mundo fundado no início do século I por Augusto, continuaria, depois de haver caído a velha cívita latina, a organizar a Afroásia por mais mil anos -- assentado muito a gosto em sua pólis greco-oriental: Bizâncio.

Quando caiu o grande complexo civilizatório helenístico -- iniciado quando os macedônios tomaram Babilônia e superado quando os otomanos conquistaram Bizâncio  -- a Europa, península da Afroásia, viu-se submetida ao sistema-mundo muçulmano, que organizava a indústria chinesa, e a produção de matérias-primas e especiarias da Índia, numa rede comercial que cobria a distância entre a China e a Espanha. Até a organização, pela civilização muçulmana, da massa de terras então conhecidas -- nenhum outro projeto civilizatório havia conseguido integrar o além-Eufrates a Gibraltar.

Se os reinos pobres e inexpressivos da Europa tentavam dirigir-se aos centros cosmopolitas da Afroásia pelo Mediterrâneo -- caminho outrora palmilhado, à exaustão, por latinos, gregos e cartagineses -- tolhia-se-lhes o intuito o bloqueio marítimo imposto pelos otomanos, senhores da outrora Bacia Romana. Por isso, quando as monarquias da Península Ibérica instituíram os dois primeiros Estados-nação da Modernidade -- eles se lançaram a uma arriscada empresa: descobrir as correntes marítimas do Atlântico que, a certa altura das ilhas que hoje pertencem às águas brasileiras -- impulsionam as naus até onde se achavam a riqueza e a cultura das terras então conhecidas: os portos do Oriente.

Para viabilizar economicamente um emprendimiento nunca antes tentado -- chegar às ricas costas da Ásia singrando as correntes do "Mar Desconhecido" (o Atlântico) -- os armadores hispânicos, financiados pelas Coroas dos Estados-nação recentemente constituídos na Península --  resolveram explorar a maior descoberta cosmográfica até então realizado pela ciência, pela tecnologia e pela indústria: uma grande massa de terra -- até então desconhecida pelo sistema-mundo e, por isso, não integrada à Afroásia.

Era um descobrimento recente: a China circunavegara e cartografiara esse continente em 1421; mas não demostrara interesse em conquistá-lo.

Aos que desconheçam haver sido a América descoberta pela China: https://glo.bo/3A8jrNp

A razão para semelhante desinteresse provavelmente seria o mesmo que dissuadiria os reinos marítimos da civilização islâmica, como a Turquia, a empreender tal conquista: as rotas de caravana bastavam para a manutenção da soberania sino-hindo-islâmica na Afroásia.

Com tecnologia e conhecimento traficados por genoveses e venezianos -- membros da família Polo, por exemplo, haviam conseguido chegar à corte de Kublai-Kan -- a ideia dos armadores da Península não era precipuamente conquistar essa nova massa de terra; até porque já se sabia que nela havia habitantes -- e eles, claro, resistiriam. O intuito era conhecer esses povos e negociar com eles -- como Marco Polo o fizera quando de sua visita à China. Depois, abastecidas as caravelas de água e víveres -- rumar aos portos asiáticos onde o comércio já estava plenamente estabelecido.

O que encorajou os visitantes a voltar para conquistar, foram três coisas: a abundância de metais preciosos (especialmente a prata); uma culinária e uma farmacopeia riquíssimas, cujos artigos poderiam mostrar-se rentáveis no mercado de especiarias (a batata, a coca, o tabaco e o cacau que o digam); e a percepção de que os impérios estavam em crise: disputas pela sucessão e sublevações de comunidades submetidas à tributação.

Porém o que definitivamente moveu os embaixadores das coroas ibéricas a retornar com reforços para puxar das espadas e fazer disparar os canhões -- foi um fenômeno deveras misterioso e assustador para os que não tardariam a passar de anfitriões a súditos. Ou escravos.

Desde os primeiros contatos nas ilhas caribenhas, tão logo chegavam os navegantes -- uma epidemia varria as comunidades. Proliferavam os casos de um mal nunca antes visto pelas populações: febre, dor, cansaço, vômito -- e um estranho sinal: umas pústulas, que cobriam todo o corpo. Se alguém escapava, ficava com cicatrizes por toda a vida, cobrindo-o dos pés à cabeça.

Esse fenômeno foi tamanho, que as populações caribenhas foram extintas, e rápido. Não é à toa que hoje custa mentalizar caribenhos com traços fenotípicos e culturais de povos originários: os espanhóis, para viabilizar, a Conquista no Caribe, tiveram de repovoar a região com escravizados africanos. Na Jamaica, por exemplo, o único traço indígena que restou foi o nome.

Se os grandes impérios -- o asteca, o maia e o inca -- tivessem tomado conhecimento da pandemia de varíola que dizimara os povos originários no Caribe -- seguramente sequer teriam deixado desembarcar os navegantes espanhóis. Entretanto a lógica de organização do território de cada império -- não acarretava uma necesidade de comércio, diplomacia e intercâmbio que os integrasse.

É verdade que a tecnologia bélica dos conquistadores foi materialmente superior: a) espadas e armaduras de aço; b) cavalaria; c) armas de fogo; e d) canhões. No entanto essa superioridade tecnológica não explica tudo.

No século XIV a. C., o Egito foi invadido por uma etnia asiática: os icsos. A situação de tal conquista foi análoga à que se infligiu aos povos originários americanos. Aproveitando-se de uma crise política, os conquistadores chegaram pelo delta do Nilo e obtiveram êxito ao empregar uma tecnologia militar superior: arcos duplos, carros e cavaleiros. Embora fossem ricos e sofisticados, os reinos do Alto Egito e do Baixo Egito não empregavam cavalaria: apenas infantaria; e seus arqueiros não conheciam o arco duplo: somente o simples.

Todavia, passados cem anos, os egípcios expulsaram os icsos e, havendo assimilado sua tecnologia, fizeram incursões no Oriente próximo e submeteram essa região à vassalagem.

Se não fossem as pandemias -- sim, mais de uma! --, os portugueses e os espanhóis não teriam integrado a América à Afroásia como "sua propriedade": ainda que obtivessem um êxito inicial por conta da superioridade de sua tecnologia militar -- os impérios ter-se-iam reorganizado e resistiram.

Com a Conquista, finalmente os sapiens do Novo Mundo passaram a compartilhar o mesmo patrimônio imunológico que permitiu a Marco Polo apresentar-se a Kublai-Kan sem que nem um nem outro caíssem doentes. Lamentável e tragicamente, semelhante "integração microbiana" não se deu senão ao custo do genocídio de numerosas  populações e da destruição de ricos e sofisticados impérios.

Assim se responde -- de maneira contemporânea: isto é, crítica à Tradição -- a por que os europeus conquistaram os povos americanos. Quanto à possibilidade contrária, pode-se-ia inferir que a principal razão de os impérios pré-colombianos não terem cruzado o Atlântico -- dotados que eram de conhecimentos científicos e tecnológicos tais, que não falta quem garanta serem até alienígenas -- é a mesma que desmotivou a China a conquistar o Novo Mundo: por que o fariam? Uma empresa cara e arriscada como essa não se faz por deleite intelectual nem por gosto à aventura. Se a periferia da Afroásia não estivesse empobrecida e isolada por conta da impossibilidade de navegar livremente, pelo Mediterrâneo, ao Oriente -- centro do sistema-mundo desde o princípio -- os europeus não teriam razão nenhuma de descobrir as rotas atlânticas para a Ásia.

Eis aí uma narrativa que -- problematizando o que a Tradição estabelece como o Descobrimento da América -- critica os fundamentos geo-históricos da Conquista: insurgindo-se à versão clássica do descobrimento acidental de um como Paraíso terrenal (cujos habitantes, não obstante a vantagem numérica, não puderam senão submeter-se ao poderio bélico e à superioridade cultural de seus "senhores naturais") -- contemporâneos, como Enrique Dussel e outros teóricos do Giro Descolonial, propõem outra ontogênese para a incorporação (pela periferia, e não pelo centro do sistema-mundo de então) da enorme e rica massa de terra -- descoberta pelos chineses, que declinaram de conquistá-la -- ao complexo civilizatório sino-hindo-islâmico.

Por último, para concluir estas considerações, que, em vez de breves, já se mostram demasiado confiadas da indulgência do Leitor -- frise-se: para quem esteja ideologicamente afeito à Tradição, como os que se identificam, em termos políticos, com a defesa de um constructo clássico -- a Civilização Ocidental --, ao qual atribuem, como seus pilares, o Direito (romano), a Filosofia (grega) e a Religião (judaico-cristã) -- a narrativa acima é tão pouco crível quanto as evidências cabais de que a estatuária greco-romana nunca (por favor, repita-se: nunca) foi toda branca, marmóreamente alva -- símbolo da serenidade no cultivo da Razão e no apreço à Ordem, e distintivo da Idade Clássica, que se oporia ao despotismo e a extravagância da opulenta (mas bárbara) Idade Antiga oriental.

Aos que ainda não se tenham inteirado de que a escultórica greco-romana era adornada por uma exuberância de cores e adereços: https://bbc.in/35ZDTlW

Assim como os românticos alemães inventaram o mito da peregrinação do Espírito desde o Oriente primitivo até o Ocidente civilizado para justificar a expropriação dos recursos naturais dos lugares e a escravidão da mão de obra dos povos aos quais se estendeu progressivamente o projeto de dominação da rica e sofisticada Afroásia -- cuja primeira etapa consistiu na anexação, aos reinos periféricos da Europa, dos opulentos e requintados impérios da massa de terra descoberta pelos chineses -- os artistas e pensadores das repúblicas de Gênova e Veneza, que pertenciam, pela vida comercial que entretinham com os otomanos -- à opulência da Ásia, e não à irrelevância da Europa -- emulavam a estatuária e outros elementos da cultura helenística, que não chegavam à analfabeta e rural Europa. Como a quase totalidade das peças, pela ação do tempo, haviam perdido os pigmentos -- os renascentistas passaram a adotar a ausência de tintas e adereços nas estátuas e baixos-relevos (por desconhecimento, supunham ser tal ausência própria do estilo helenístico): era uma forma de opor a Renascença -- culta e letrada -- à colorida pintura dos vitrais e afrescos medievais -- arte representativa do recôndito então mais obscuro da Afroásia: a Europa, rural e analfabeta.

Mas não prossigamos: isso de haverem sido as estátuas greco-latinas coloridas e adereçadas é outra história. E geografia. 

* Marco Roberto de Souza Albuquerque é professor e educador social.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Portal de Noticias Fronteira Livre

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