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Terça, 25 de janeiro de 2022
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Coluna

Muito importante haver marcos categóricos; e também desafiantes intuições

A propósito da contribuição teórica do Dr. Adilson Moreira ao debate sobre o conceito de racismo.

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Eduardo, meu Irmão:

Pax Domini Tecum.

Devo dizer-lhe que muito me entusiasmou assistir à entrevista, concedida a você, em sua live, pelo Dr. Adilson José Moreira.
O fulcro de meu entusiasmo é o cuidado do entrevistado com o rigor na mobilização de categorias que orientam suas respostas por paradigmas consistentes em termos de conceituação e análise.

Entre outros pontos, destaco sua definição de racismo como uma realidade social que não se restringe nem se confunde com a mera hostilidade pessoal (minutagem no vídeo: dos 17min08seg aos 18min02seg.): trata-se, ao contrário, de um sistema de dominação social cujos principais propósitos são a) garantir vantagens competitivas em prol de pessoas socialmente reconhecidas como brancas (contra etnias áfricas, asiáticas ou indígenas, bom seus descendentes) e b) garantir a respeitabilidade enquanto um patrimônio exclusivo de pessoas brancas.

Como quem aspira a tornar-se filósofo (para tanto, encaminharei, a partir do ano que vem, minha dissertação à estética da libertação, preconizada pelas elaborações filosóficas de Enrique Dussel), julgo imprescindível, para o desenvolvimento de um debate público, ademais de crítico – propositivo, desenvolver semelhantes marcos categóricos, a fim de robustecer e clarificar todas as “tecnologias sociais” que se venham a desenvolver a partir de suas bases intelectuais.

Do contrário, a iniciativa crítica pode, ao perder fôlego quanto à sua coerência (discursiva) e consistência (social), acabar por esmorecer, não ficando senão no âmbito de um mero impulso, de uma simples insatisfação ante a conjuntura que nos acossa e oprime.

Por isso, quando, além do interesse pela emancipação das classes e etnias subalternizadas, uma enunciação pública mobiliza categorias que balizem as práxis políticas republicanas (no sentido progressista do adjetivo), não me furto a registrar meu entusiasmo intelectual.

Contudo não poderia deixar de encerrar estas linhas senão referindo-me a uma noção, a um insight externado por você, meu irmão – o qual cuido merecer uma elaboração teórica subsequente. E faço semelhante registro como que estendo um convite, para tanto, à gente capacitada que acompanha seu trabalho, seja integrando a comunidade ICL, seja demonstrando solidariedade à sua relevância social e pertinência política.

O insight em questão é a provocação que você levantou a respeito de outro norte, de outro direcionamento para condutas, não somente justas, porém sim sustentáveis – provocação, aliás, dirigida mormente aos que integram o progressismo social: não nos contentemos em partilhar o que nos resta, nos sobra, e sim nos empenhemos pela distribuição do que nos é relevante – basta de compartilhar tão só o que sobeja. (Minutagem: dos 22min36s aos 26min42s)

Semelhante desafio (com várias dimensões e implicações: intelectuais, éticas, estéticas, políticas, socioeconômicas) coincide, em certos pontos nodais, com a crítica do filósofo Vladimir Safatle à estratégia de governos progressistas (como os desenvolvidos pelo PT) em favor, não de um combate à desigualdade, senão de uma “capitalização dos pobres”: isto é, em vez de “trazer para baixo” – a fim de horizontar as oportunidades sociais – as classes mais bem aquinhoadas, busca-se “levar para cima” as camadas sociais subalternizadas, processo esse de pouco fôlego, pois um dos seus corolários é o favorecimento da inflação, uma vez que as classes que se mantém no pináculo social promovem o aumento do custo de vida (quer por conta de seu consumo conspícuo, quer por razão de sua renda ociosa, não resultante do trabalho).

Com relação à crítica de Safatle à “capitalização dos pobres”, em detrimento do combate à desigualdade social, veja-se este vídeo:

(Minutagem: dos 17min15s aos 19min28s.)

Também conflui – em alguns aspectos – com o que preconiza Serge Latouche com base em sua teoria do decrescimento econômico. Entre outras orientações de tal teoria, está o princípio de que o bem-estar sustentável de nossa civilização implica voltarmos a um padrão de consumo equivalente ao da França dos anos de 1960.

A respeito de Serge Latouche e sua proposta de uma “regressão econômica”, assista-se a este documentário:
 
(Minutagem: dos 50min22s aos 50min50s.)

De modo que seu insight, Eduardo irmão, se arrima a elaborações intelectuais teoricamente sustentáveis: falta agora desenvolvê-lo epistemologicamente e projetá-lo politicamente como uma diretriz civilizatória que congregue, ao redor de si, um projeto de Nação para nosso país e todo o Sul global.

Por aqui encerro esta como que saudação de quem deseja colaborar para ampliação das conquistas e a superação dos desafios de toda a Comunidade que se organiza em torno de sua iniciativa, disposição e talento, meu admirável irmão.
Despeço-me correligionária e afetuosamente.

Shalom Aleichem.
Atenciosamente,
Marco Roberto de Souza Albuquerque

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