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Segunda, 06 de dezembro de 2021
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Coluna

Debaixo de nossos pés - e acima de nossas cabeças

Considerações inspiradas no vídeo "Perú polarizado", do canal de notícias Deutsche Welles.

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Os brasileiros sofremos de uma grave deficiência sociocultural, historicamente determinada por nossa ontogênese colonial: não nos damos conta de que caminhamos sobre a Terra, debaixo de nossos pés – nem nos apercebemos de que andamos sob o Céu, acima de nossas cabeças. Fixamos os olhos no Mar: esforçamo-nos por conhecer e imitar o que se faz e o que se pensa nas Costas que nos infligiram a Conquista, e procuramos inteirar-nos de suas preocupações, e dispomo-nos inclusive a contribuir para o sucesso de seus interesses.

Assim, conquanto façamos bem em pormo-nos ao corrente dos conflitos entre a Europa ocidental e a Rússia, e nos mostremos sensatos por estarmos a par das tensões entre a China e os Estados Unidos – recriminemo-nos por não nos interessarmos pelo que tem ocorrido no cenário sociopolítico da América do Sul, se é que estamos mesmo preocupados com o que possa suceder, de ora avante, até as eleições, no Brasil, do ano que vem. Até porque, entre nosoutros, ainda que não sejam poucos os que estejam certos de que haverá um ano que vem – não são tantos os que asseguram que haverá eleições.

Para não irmos longe, nem falemos na corajosa e obstinada resistência, na Colômbia, dos sindicatos e dos movimentos sociais, à política impopular que a orientação econômica neoliberal costuma prescrever em situações de recrudescimento das mazelas sociais: aumento de impostos para a classe média e diminuição de investimentos para as classes populares – tudo para que haja uma austeridade fiscal tamanha, que não faltem dividendos para, sacrificando-os ao Mercado – acalmar a esse sempre assustadiço deus. É escusado dizer que – ainda seguindo à risca a cartilha neoliberal para a superação de problemas sociais – o Governo não se tem feito de rogado em buscar dar ensino aos que ainda teimam na ignorância de supor que ao Estado compita empregar recursos para assistir ao povo, em vez de elevar juros para atrair especuladores e cortar gastos para salvar bancos. Não se têm poupado, portanto, sopapos nem prisões; e os gastos em balas de borracha e bombas de gás vêm sendo tais, que é lícito supor a confiança dos fabricantes do setor na retomada do crescimento.

E, para não nos alongarmos, nem convém dizermos que, no Chile, a insurgência social generalizada contra o modelo neoliberal tem sido tamanha, que talvez não tarde a soçobrar a “Suíça sul-americana” que vem à cabeça de Paulo Guedes sempre que nosso ministro da Economia busca convencer a opinião pública de que, sim, haverá, na produção de riquezas em nosso país – uma curva ascendente de estrambótico formato: a “Curva em V”. Como naquele Chile verdadeiramente moderno e indiscutivelmente capitalista, é preciso lançar mão de uma Geometria um tanto cabalística, que combina uma desesperada busca de liberdade para o Mercado e um obstinado intento de opressão para a sociedade. Então se dá uma vertiginosa queda: tem-se a impressão de que se mergulha num poço sem fundo. Quando as classes médias e os extratos populares finalmente chegam ao fim de seu descenso – então se inicia a meteórica ascensão de um grupelho associado ao capital dos acionistas, que vem medrar num paraíso onde, extintos os cidadãos – tudo são clientes. Quando, do fundo do poço, um ou outro intentam insurgir-se contra semelhante leonina divisão do “bolo” das riquezas – então o Estado, como o capitaneado por aquele Pinochet chileno, trata de levar os sublevados para outro buraco: a cova. No entanto, o povo chileno, cansado de toda essa concentração de renda, depois de um quebra-pau daqueles – conseguiu forçar o Governo a abrir um pleito para a eleição dos integrantes de uma Assembleia Constituinte. Não deu outra: prevaleceram representantes dos movimentos sociais, dos partidos de esquerda – e das mulheres. Ao que parece, se há um V que interesse à maioria entre os chilenos, é aquele que se vem tornando um símbolo cult de resistência às determinações engendradas pelo establishment: o mascarado V de Vingança.

Concentremo-nos, portanto, no Peru. Haja vista a exígua margem de votos que deu a vitória a Pedro Castillo sobre Keiko Fujimori nas eleições presidenciais -- submeteu-se a apuração a uma recontagem, a pedido da derrotada. Como se não bastasse o temor da imprecisão e a ansiedade pela demora – pois o sistema de votação não é eletrônico: exige a contagem manual de cédulas de papel – o Peru (à semelhança do Brasil) sofre de uma aguda polarização entre a candidata identificada com o modelo neoliberal (e por isso muito bem acolhida pelos consórcios oligárquico-financeiros que tocam os negócios no país) e o representante dos enclaves montanhosos, onde padecem os extratos menos favorecidos da sociedade peruana: um sindicalista e professor, declaradamente marxista.

Ao longo da campanha eleitoral, a sociedade peruana assumiu certos traços psicossociais análogos aos que se têm notado no Brasil: embora Fujimori esteja às voltas com denúncias de corrupção – seus simpatizantes alegam que pior é chegar à presidência um comunista. Por outro lado, Castillo buscou conciliar – para viabilizar sua candidatura – as pautas próprias a um candidato de esquerda (ainda por cima sindicalista): programas de inclusão social e iniciativas governamentais em prol da desconcentração de renda – à agenda de costumes: defesa do modelo cristão de família, posição contrária à ampliação do direito ao aborto e das conquistas da comunidade homoafetiva.

Logo acompanhar de perto o desfecho das eleições peruanas poderá antecipar muitos cenários que quiçá se descortinem, entre nosoutros, ano que vem.

Preocupamo-nos com o ano que vem no Brasil, e fazemo-lo muito bem: tudo indica que haverá tensões que extrapolarão os embates engendrados pelo ardil dos marqueteiros. Contudo o acirramento das disputas políticas nas demais repúblicas da América do Sul poderá justificar aventuras totalitárias. Até porque o Capital, ao contrário da Cultura, costuma, no Brasil, ficar muito atento ao que ocorre sobre a Terra, debaixo de nossos pés, e sob o Céu, acima de nossa cabeça.

É preciso visão de conjunto: dependendo de como se desfechará o conflito civil na Colômbia, e de qual será o resultado das urnas no Peru, as oligarquias e os especuladores poderão, em favor de seus privilégios, sentir-se tentados a financiar quem, nas próximas eleições brasileiras, mande a Ordem constitucional para as cucuias. Afinal, como se fosse pouco o Milagre Boliviano – que adotou a nacionalização do petróleo e do gás, e vem fazendo expressivos investimentos sociais com os dividendos adquiridos com os hidrocarbonetos – a nova Constituição chilena poderá melindrar um dos paradigmas neoliberais até agora mais consistentes.

Mantenhamo-nos atentos às rusgas entre a China e os Estados Unidos; não descuidemos dos atritos entre a Rússia e a Europa ocidental. Entretanto não deixemos de inteirar-nos do que ocorre em nosso continente. Rico em recursos naturais, supera qualquer outra latitude em termos de potencial econômico: do petróleo às energias renováveis, das terras agricultáveis às reservas de água potável – tudo aqui há, e em grande quantidade e de ótima qualidade. Por isso é tal a ambição dos conglomerados mercantis e dos oligopólios bancários, que rasgar Constituições e inflar a sanha de tiranos passa a ser apenas alguns algarismos numa planilha.

* Marco Roberto de Souza Albuquerque é professor e educador social.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a política editorial do Portal de Noticias Fronteira Livre

 

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