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Terça, 25 de janeiro de 2022
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Coluna

Carta aberta ao Bispo da Igreja local em Foz do Iguaçu

A propósito da discussão sobre liberdade ante a necessidade de impor medidas de controle à pandemia.

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Foz do Iguaçu, 2021: memória de São João Diego – 9 de dezembro.


Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor,
Pax Domini Tecum.
Peço sua bênção.


Esta semana tem-se tornado particularmente tensa por conta das apreciações, em diferentes casas legislativas (municipais ou estaduais), da proposta de fazer valer medidas sanitárias que exijam – para a participação em eventos nos quais a aglomeração de pessoas possa favorecer a circulação da Covid-19 – a comprovação da inoculação contra seu patógeno (medidas essas popularmente conhecidas como “passaporte sanitário”).

Exaspera-me ver como a ascensão do fascismo entre nós outros desde o golpe parlamentar de 2016 e suas implicações eleitorais e institucionais subsequentes – há arregimentado sectários “antivax”, ademais de suscitar bizantinos e ociosos debates ao redor de uma quase obsessão pela Liberdade (só a de ir e vir, claro está: a que pode ser usufruída a gosto por quem há muito se refestela num acesso farto e guloso ao sistema social de oportunidades).

É como se já não estivesse bem estabelecida, seja pelo Direito, seja por outras instâncias do saber voltadas para o ordenamento social – a primazia da defesa da Vida concreta sobre todas os outros parâmetros legais, ético e morais que respeitam à defesa do bem comum.

Contudo o que mais me desespera, na escalada de tamanho obscurantismo, é constatar que pessoas intelectualmente bem preparadas – muito mais do que eu! – e espiritualmente acrisoladas em experiências e vivências muito edificadoras – muito mais do que as minhas! –, se deixam enredar pelos ardis ideológicos de quem vem tocando a aventura fascista que há esgarçado a tessitura social de um modo tão violento, que nem mesmo oligarcas da marca de um Collor ou de um Sarney teriam o despudor de perpetrar.

Assim, a exemplo daquela jumenta de Balaam HaNavi (profeta Balaão: Nm 22, 22-33), ouso advertir a Vossa Excelência Reverendíssima – não obstante não ombrear eu com sua autoridade espiritual e seu conhecimento teológico – contra o perigo que implica menoscabar a exigência do “passaporte sanitário” (entendido como um incentivo à busca individual pela imunização e à pressão social pela celeridade e incremento dos esforços estatais pela vacinação contra a Covid-19), entre outras medidas de controle da dispersão do agente etiológico da pandemia – como a obrigatoriedade do uso de máscara.

Talvez eu não receba de Vossa Excelência Reverendíssima, por conta disso, senão fustigações morais que rivalizem com as pancadas com que o grande profeta de Padan-Aram inicialmente moeu sua cavalgadura. Mas não vejo como furtar-me a esse dever: movido pela estima, frise-se, como não foi outra a motivação daquela jumenta.

Façamos antes uma imersão exegética, contudo, na liturgia da Palavra de hoje, dia em que secelebra a memória de um santo que, em termos humanos, não divergia muito da estatura de meus conhecimentos e da envergadura de minhas virtudes.

***

O ponto alto das porções do Mikrah (Escrituras) que se servem na mesa da Palavra, hoje, concentra-se na apologia ao profetismo yahvista – a qual, sabemos, culmina no elogio que Barnasha’ (o Filho do Homem) dedica à perenização da memória de Yochanan HaMat'bil (São João
Batista).

Todavia não nos antecipemos: saboreemos, antes de tomar o Pão evangélico, o oráculo atribuído a Yeshayahu HaNavi (o profeta Isaías).

O excerto profético (Is 41,13-20) – desenvolvendo as alegorias de alegria e consolação próprias à literatura oracular pós-exílica, abertas, no domingo desta segunda semana do Advento, pela profecia de Baruch HaNavi – ressalta a força e a benevolência de Yemin-Yahweh (a Direita de Yahweh) em sua eficácia na satisfação da Emunah (Fé) do “pequeno Resto”, o qual, no Exílio, confiava no poder e no favor de Kadosh-Yisra’el (o Santo de Israel) em prol de sua repatriação e
prosperidade.

A Tehilah [Salmo: 145 (144)] que responde a essa confiança profética, encaminha a Emunah exílica para as imagens da Malchut-Elohim (o Reino de Deus): a Yahweh, invocado como HaMalech (o Rei por excelência), atribui-se-lhe o poder de haver criado uma realidade ainda mais promissora do que a encerrada naquelas imagens iniciais de fartura e segurança da eretz-Cnáam (terra de Canaã), prometida aos patriarcas – e a benevolência de reservá-la a seus fiéis.

Toda essa efusão de confiança e alegria, contudo, no excerto evangélico de hoje (Mt 11,11- 15), toma uns ares menos ufanos.

A par da exaltação do Precursor como antonomásia do profetismo yahvista – logo, figura-tipo do Justo: aspiração espiritual que, no judaísmo, equivale à busca cristã por santidade –, Yeshua HaRabbuni (Jesus, o Mestre) alude a um acometimento violento contra a Malchut-Shebashamayim (o Reino dos Céus): desde o advento de Yochanan HaMat'bil e sua obra profética em favor da Tshuvah (arrependimento dos pecados e busca da reconciliação com Elohim), são os violentos que hão logrado sua conquista (Mt 11, 12) – a começar pela paixão e morte daquele a quem HaNazarih(o Nazareno) atribui uma homologia (Mt 11, 14) com o maior dos nevi'im (profetas): Eliyahu (Elias).

Ambos estamos a par, Excelência Reverendíssima, da polissemia que a Hermenêutica tem estabelecido sobre esse passo, o qual, de tão complexo, se encerra com a proverbial advertência hebraica: “Quem tem ouvidos, ouça” (Mt, 11, 15).

As anotações da Bíblia de Jerusalém, por exemplo, arrolam exegeses mui diversas: desde a edificante interpretação a favor de que semelhante violência alegoriza o duro esforço espiritual dos que ascendem à santidade até a sombria significação de que os opositores à Malchut e sua Tzdakah (o equivalente hebraico da Cáritas neotestamentária: Justiça + Misericórdia) têm logrado obstar a seu estabelecimento histórico – matando aos que adiram ao projeto soteriológico do Evangelho e oprimindo aos que nele depositam sua fé.

Dado esse complexo e antinômico arco semântico, Excelência Reverendíssima, fiquemos aqui com a interpretação comumente atribuível ao exame desse excerto: desde os dias de Yochanan HaTzadik (o Justo), os que se têm refestelado no Poder se obstinam em não se arrepender de seus pecados e em não se converter ao Evangelho – e é com violência que eles, governantes das nações e tiranos dos povos, vêm buscando torcer o Caminho em favor de seus interesses, privilégios e
comodidades.

Aliás, o martírio de Ben Zachariah (Filho de Zacarias), assim como o sacrifício do próprio Barnasha’ – atendeu justamente a cálculos com vistas à manutenção de uma conjuntura favorável aos que, havendo chegado a uma condição de mando e autoridade, não estavam dispostos a ver diminuídas suas ambições nem contrariados seus caprichos.

Não há duvidar que o Léchem (Pão) hoje partilhado à mesa da Palavra visa a robustecer nossa Emunah: ao fim e ao cabo, o próprio excerto evangélico se encerra com uma figura de vitória – inclusive sobre a morte: Eliyahu HaNavi – para realçar a imorredoura obra de HaMat’bil, cuja exortação ao arrependimento e à conversão culminou toda a tradição histórica do profetismo yahvista e levou o Am-Elohim (Povo de Deus) ao limiar soteriológico do Evangelho.

Todavia é preciso reconhecer: subjaz uma advertência na exortação à confiança que devemos ter na eficácia e no poder de Yemin-Yahweh em vencer aos que se obstinam a assenhorar-se da Malchut e subordinar sua Tzdakah a cálculos de dominação e tirania; e subentende-se uma nota de pesar na proclamação da vitória do Evangelho, cujo sinal precursor era o cumprimento da promessa de que, antes do estabelecimento completo da vontade de Abba na Terra, como já o é, plena, no Céu – Eliyahu deveria vir; e ele veio na pessoa daquele que é o maior entre os nascidos de mulher (Mt 11, 11a): Yochanan HaMat’bil.

Sim, Excelência Reverendíssima: sabe a um travo de exortação e advertência o anúncio do Evangelho na liturgia de hoje. Porque – todos sabemos – Yeshua venceu o Mundo, e todos oráculos de Yochanan a respeito do Cordeiro se cumpriram; no entanto, “se o Fogo já se apagou, a Panela continua quente”. Qui habet aures audiendi audiat.

O projeto histórico da Malchut, que foi iniciado com a perfeição da Encarnação, cumprir-se-á com a mesma excelência quando do advento da Parusia; nesse ínterim, porém, nossa adesão à sua consecução – e é nisso que consiste a soteriologia de nossa conversão – tem seguido o ritmo que se espera de nossa condição humana: com avanços e recuos; entre saltos e claudicações.

Por isso devemos estar atentos aos que se esfalfam em assenhorar-se, pela violência, da Malchut e suas promessas, e não se cansam de lançar mão dos mais sofisticados ardis para cooptar mesmo os tzadikim (justos) em favor da violência com que governam as nações e tiranizam os povos – violência, aliás, particularmente exercida contra aqueles a que se lhe deparam os mais obstinados filtros e funis no acesso ao sistema social de oportunidades: os que têm fome e sofrem de sede; os que se acham às voltas com privações as mais diversas – despidos mesmo dos mais elementares direitos, a fim de que, com a agudização de sua opressão, não faltem privilégios a seus opressores.

***

Vivemos um momento muito peculiar, Excelência Reverendíssima: o tempo passa, e as mudanças ocorrem a cada átimo – seja na vida dos indivíduos, seja na história dos povos; entretanto, assim como nos damos conta, em nosso corpo, de que a consolidação de determinadas transformações assinalam a passagem de uma etapa à outra da vida (da infância à adolescência, e daí por diante) – há certos câmbios na organização social que apontam claramente para a passagem de uma para outra era histórica, ou idade do Mundo.

Encontramo-nos no limiar de outro século XVIII: uma nova Revolução Energética (a descarbonização dos processos de produção e a subsequente eletrificação dos transportes e outros usos da energia, outrora obtidos pela combustão).

Como quando daquela revolução tecnológica que se iniciou com a substituição da energia muscular pela auferida do uso do vapor (inicialmente na indústria têxtil, e logo em seguida nos veículos: trens e navios) – há, hoje, uma profunda expectativa de instabilidade na divisão internacional do trabalho: o Poder pode mudar de mãos, e nações até agora hegemônicas podem conhecer seu ocaso.

Não surpreende que hajam recrudescido virulentamente os esforços pela acumulação primitiva do capital, os quais se desdobram concretamente no estreitamento dos pactos entre os consórcios internacionais de especulação e os setores privilegiados das nações emergentes – com vistas a pauperizar a remuneração dos trabalhadores, diminuir o poder discricionário do Estado e potencializar a exploração dos recursos naturais.

Logo a ascensão do fascismo na América Latina e a instauração de aventuras políticas em prol do desmonte da capacidade de investimento social pelo Estado e em favor da abertura das “porteiras” para a passagem de desregulamentações nas relações de trabalho e na exploração das riquezas naturais – não representam senão o empenho pelo aumento de “provisões estratégicas” ante o momento de instabilidade na geopolítica do poder e da influência.

E, como sabemos, Excelência Reverendíssima, ao Povo, em geral, e ao Pobre, em particular, toca-lhes sofrer o que for necessário para que a garantia dos privilégios de poucos superabunde em detrimento do menoscabo dos direitos da esmagadora maioria.

Às etnias e camadas sociais subalternizadas, Excelência Reverendíssima, tem-lhes concernido a dureza dos discursos de austeridade: cortam-se investimentos no bem-estar social e extinguem-se políticas de assistência aos mais necessitados à medida que aumentam as isenções tributárias e se criam novos programas de concentração de renda. Corta-se o Bolsa-Família para ampliar o Refis: ambos, eu e Vossa Excelência, não o podemos negar; saltam-nos aos olhos.

E qual será a contrapartida que se oferece às mãos empobrecidas para que se obstinem em continuar aplaudindo as outras que se afanam em tomar para si os recursos públicos?

Concretamente, nada – ou muito pouco. Por isso urge, para contentar aos subalternizados, erigir e alardear uma suntuosa “Agenda dos Costumes”, a qual inculque nos famintos outras preocupações e aflições que não seja, por exemplo, a de comer.

“Do nada”, pululam discursos – pomposo até, mas vazios e contraditórios: é que não importa a consistência de seus argumentos, e sim o adorno de suas imagens – em favor da exaltação de ideias aprioristicamente incontrastáveis. No momento, à Liberdade compete-lhe receber as mais ardorosas exaltações. Depois, outras poderão ocupar-lhe o lugar (como, aliás, já o fizeram): Vida? Democracia? Família?

Veja, por exemplo, Excelência Reverendíssima, como tem sido, entre nós outros, a gestão da crise sanitária: desde o início, a prioridade tem sido a manutenção dos fluxos de mercadorias e serviços, o que há implicado uma verdadeira aversão à adoção de cuidados restritivos à circulação e aglomeração de pessoas.

Chegou-se mesmo ao crime (digo-o literalmente) de orquestrar-se uma política pública de exposição em massa á contaminação como suposta medida profilática contra a expansão da pandemia. E, não obstante as sucessivas evidências contrárias a essa imaginária “imunidade de rebanho”, e malgrado os novos indícios de que a propagação de novas variantes exigem o recrudescimento do controle sanitário – voltam a exasperar-se os que não aguentam mais esperar
pelo aumento de suas vendas e já se impacientam com o retardo na expansão de seus negócios.

Claro está, Excelência Reverendíssima, que o conjunto da situação faz perigarem todos os interesses, não importa quão fornida, ou não, seja a parte de cada um no sistema social de oportunidades.

A coisa toda é tão complexa, que o mais acertado é preconizar que vivemos uma verdadeira crise civilizatória (como ocorreu quando do advento da indústria e de outras inovações tecnológicas decorrentes da Revolução Energética do século XVIII) – e tanto é assim, que o país que mais adequadamente tem enfrentado a atual crise sanitária internacional, por exemplo, é o menos afeito a nossos paradigmas modernos de democracia representativa e defesa das liberdades individuais: a China.

Assim, dada a suma complexidade destes tempos de transição civilizatória – segundo a qual os modelos culturais vigentes não se mostram mais suficientes para ordenar o Mundo, porém os novos paradigmas, que julgamos capazes para tanto, ainda são incertos –, tudo o que recomendo a Vossa Excelência Reverendíssima, como a toda a Igreja, é prudência e discernimento: entre tantos que choram, sempre há os que – não por mérito, senão por esperteza, e até safadeza – não se furtam a lucrar vendendo lenços.

Cautela, Excelência Reverendíssima: os violentos voltam a julgar-se capazes de acometer a Malchut e submeter suas promessas à manutenção de privilégios e à satisfação de caprichos.

Que São João Diego redobre suas intercessões em favor de nossa opção pelo Povo, em geral, e em prol de nossa preocupação com o Pobre, em particular: ele, cuja origem e condição social, nos dias de hoje, se vivesse no Brasil, o colocaria entre os milhões que se veem afligidos pela fome e desalentados pelo desemprego.

Eu deveria terminar estas linhas demonstrando a Vossa Excelência quão importante – entre outros cuidados sanitários que merecem uma redobrada atenção e motivação: tal qual o uso de máscara – é a adoção do “passaporte sanitário” com vistas a estimular o interesse individual pela imunização e a incentivar a pressão social pela ampliação e celeridade da vacinação; mas ocorre-me fazer melhor.

Convido Vossa Excelência Reverendíssima a atentar para os argumentos e dados mobilizados pelo doutor em microbiologia Atila Iamarino na live transmitida, no último sábado (dia 4), em seu canal no YouTube: caso o conhecimento de causa e a clareza didática desse cientista e difusor científico não lograrem demonstrar a Vossa Excelência Reverendíssima que a defesa concreta da Vida tem absoluta primazia sobre toda e qualquer preocupação difusa com a Liberdade – não sou eu
quem o faria, ainda que acrescente infindáveis parágrafos a esta missiva, a qual, aliás – havendo-se já estendido demasiado –, deve acabar por aqui.

Reitero o pedido de sua bênção.
Shalom Aleichem.

Atentamente,
Marco Roberto de Souza Albuquerque.

Assista o vídeo do Canal do Atila Iamarino
https://www.youtube.com/watch?v=jgGV2jlxioo&t=35s

 

  • Marco Roberto de Souza Albuquerque é professor e educador social.

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